terça-feira, 11 de dezembro de 2007

O ADAMASTOR


Certamente,todos nós nos lembramos, daquela figura mitológica imponente e monstruosa criada pelo nosso Luís de Camões n’Os Lusiadas, canto V, que tanto amedrontava os nossos marinheiros pela sua ousadia na navegação - O GIGANTE ADAMASTOR.
Hoje lembrei-me de um poema de um outro nosso poeta – Afonso Lopes Vieira – este contemporâneo, do século passado, que também nos dá uma visão mais simples, direi mesmo, mais infantil, sobre esta figura:

Lá quase no fim da Terra,
Além do mar mais distante,
Vive um medonho gigante,
Que aos marinheiros faz guerra.

Num grande cabo, onde o mar
Rebenta e ruge raivoso,
O gigante temeroso
Está sempre alerta, a espreitar.

Oh que espantosa figura,
Que, só de olhá-la, se morre!
É mais alto que uma torre
Que seja de grande altura.

Tem crespos e espalhados
As barbas e os cabelos;
Os olhos são encovados,
Os dentes são amarelos.

A sua voz é um trovão,
É um estrondo longo e fundo!
Tudo à volta é escuridão,
E o mar ondula profundo.

Se algum navio passar,
O Gigante, num momento,
Levanta as ondas e o vento,
Mete-o no fundo do mar!

Navios, fugi da guerra
Do Gigante com furor.
E onde está? – No fim da Terra.
E o seu nome? – Adamastor!


Sobre este tema mas pondo, como figura principal e em primeiro plano, uma ninfa protectora resolvi pintar este painel de azulejos que mandei colocar num recanto do pátio interior da minha casa.

sábado, 8 de dezembro de 2007

O Meu Penico


Este, encontrei-o entre os vários pertences que me foram legados pela minha avó. É uma peça antiga de porcelana toda branca. Olhei-a e, imediatamente, decidi torná-la mais alegre e mais vistosa decorando-a totalmente com flores para lhe dar um ar bem primaveril.
A utilidade deste meu objecto é, e sempre foi, meramente decorativa, como se depreenderá.
Agarrei em papel, tesoura e cola. Com alguma imaginação pus mãos à obra e recortando e colando transformei um penico sem uma graça especial nesta peça tão alegre e com o meu toque bem pessoal.
Coloquei-o num dos armários da minha sala de leitura, bem em evidência, e o espaço por ele ocupado ganhou em colorido.

Vaso de noite, também se chamava a estas peças utilitárias mas, claro, também podiam ser usadas de dia. Podíamos encontrá-las praticamente em todos os lares, principalmente, nos meios rurais, todas brancas em cerâmica ou em esmalte e também em alumínio; todas lisas, com decorações pintadas à mão ou por decalque, mais ou menos todas do mesmo tamanho quer fossem usadas por “sim-senhores” pequenos ou “sim-senhores” grandes.
Ah! E, actualmente, também há os penicos das Caldas, bem interessantes. Mas esses ficam para outras conversas.

Para acabar esta minha prosa, aqui vos deixo esta quadra do nosso tão conhecido António Aleixo que nos dá mais um substantivo para tão conhecida peça.


Doutores, nobre e ricos,
Homens de grandes valores!...
As criadas – aos penicos,
Também lhes chamam “doutores”!


sábado, 1 de dezembro de 2007

LEMBRANÇAS DE COIMBRA

Hoje, envolta pela doce nostalgia desta tarde de Novembro, recordei uma cidade que me é muito querida: COIMBRA!
Lembrando a canção: “Coimbra tem mais encanto na hora da despedida” mas, direi eu que ela também tem encanto na hora da chegada.
A última vez que a visitámos foi no Inverno. O Mondego estava cheio, largo e tumultuoso, muito barrento mas belo como sempre. Ao mesmo tempo que nos convidava para um passeio pelas suas margens desafiáva-nos para uma corrida de “quem chega primeiro”.
Aceitámos. Mas o frio começou a brincar comigo pondo-me o nariz vermelho e a pingar. Claro que eu não o podia agarrar e metê-lo no saco, por isso enfiei as mãos nos bolsos do meu blusão azul, aconcheguei o cachecol sem cor ao pescoço e acelerei o passo pois não fosse ele agarrar-me os pés que já começavam a arrefecer.
No inicio do passeio não tinha encontrado o vento mas, de repente, como se tivesse saído zangado de algum esconderijo, ei-lo a soprar duma maneira incerta mas constante, mesmo na minha cara.
Como eu detesto o vento! Mais ainda quando, o seu assobio se faz ouvir por entre as portas e o seu lamento vagueia entre as árvores da alameda.
Tenho pressa de acabar o passeio, o Mondego deixou de me encantar e começo a sentir-me cansada. As pernas exigem uma paragem.
Baixo a cabeça e, em passadas que tento sejam largas, alcanço finalmente as arcadas do meu refúgio: os teus braços.
Deixo-me envolver pelo calor desse peito que me serve de apoio e aí encosto a minha cabeça onde os cabelos brancos já começam a aparecer.
Então, mesmo por cima do marulhar daquele rio ali tão perto o meu coração faz-se ouvir dizendo-me com a voz suave e doce de quem é feliz:
Já chegaste! Descansa!
De mãos dadas e vagarosamente regressámos.
Como eu te adoro Coimbra!