sábado, 23 de fevereiro de 2008

O Muro e o Jasmim

Era simplesmente um muro!

Nada comparado com o muro de Berlim aquele que separava famílias: pais de filhos, irmãos de irmãos, amigos de amigos e que foi uma vergonha para a humanidade mas que, felizmente, já foi derrubado.
Não! Nada disso.
Nem tão pouco aquele muro enorme a que chamam Muralha da China e cuja construção começou antes de Cristo e que se prolongou por muitos séculos depois.
Não! Nada disso.
Também não era aquele muro altíssimo debruado com farpas que se enterram na carne de quem tenta passar por cima e que esconde a liberdade a quem está por detrás dele.
Não! Nada disso.
Era simplesmente um muro caiado de branco.
A si, encostava-se uma amiga trepadeira que no começo da primavera enchia-se de flores brancas e perfumadas que eram o encanto da velha senhora que morava na casa ao lado e que com frequência se sentava na sua cadeira de atabua a fazer o seu crochet ou ...a dormitar enquanto aspirava aquele doce perfume do manto branco que o cobria quase totalmente.
Um dia sentiu uma alegria enorme!
Um casal de melros, visita
normal daquele espaço, começou a construir o seu ninho dentro do jasmim .
Que bom seria poder servir de suporte àquela família de plumagem preta e de bico amarelo!
Assim foi e, pouco a pouco, com pequenos galhos e pedacinhos de tudo e nada, o lar foi ganhando uma forma de covinha aconchegada e dois ovinhos lá foram colocados.
Um belo dia, o muro ouviu o pipilar dos filhotes e, a senhora vizinha passou a ir menos vezes sentar-se à sua sombra para não incomodar os jovens pais no seu trabalho de vai-vem para alimentar aqueles comilões de bico sempre aberto.
Era vê-los crescer e irem criando penugem, depois as penas já escuras e por fim os exercícios na tentativa de voar.
As flores do jasmim continuavam a perfumar o ambiente e a sua sombra amiga continuava a ser um regalo para a senhora vizinha.
Mas, um dia o bater de asas foi mais forte e enérgico e os jovens melros experimentaram aquilo para que tinham nascido VOAR . Partiram, na procura do arco-iris, abandonando o ninho vazio e... o muro sentiu saudades .,
Os pais deixaram de aparecer, embora o ninho lá ficasse e, diga-se que em bom estado de conservação, mas já não havia filhotes para alimentar e ensinar a voar.

A vida continuaria a renovar-se.
A senhora tornou a sentar-se à sombra do muro com mais assiduidade. O crochet ia finalmente ser terminado.Teria dona? Talvez para a neta.
O muro estava feliz!


3 comentários:

risonha disse...

com que então hoje almoço de lapas? que inveja!!!
achaste a minha falta porque fui á marcha passeio a quarteira, mas apanhei uma chuvada tão grande que nem saí do autocarro... eh eh eh

TINTA PERMANENTE disse...

Imagens perfeitas a encaixilhar uma estória de asas e Paz.
Perfeito!
(se bem os conheço, não tarde que voltem, não...)

Obrigado pela visita. E volte, volte sempre!

Abraços!

Emília disse...

Olá, Benó! Espreitei por aqui e gostei muito. Sente-se a artista ;D
Obrigada pela visita lá pelo meu lado. Volte sempre.
Abraços