
Chegas negra, densa, envolvente e penetrante, estendes-te por todo o espaço e num repente tomas conta do dia que acaba por sucumbir ao teu amplexo fatal.
Tal como um líquido viscoso escorrendo por entre os dedos, assim tu, noite, escoas-te vagarosamente até a manhã chegar.
Deusa dos segredos e mistérios nocturnos a quem Homero se refere como a domadora dos Homens e dos Deuses, que queres tu?
Ora chegas quente e suave, envolvendo nos teus longos braços, os casais de amantes que a coberto do teu manto negro fundem os seus corpos num só, com uma única vontade,
um único desejo…
Ora chegas chorosa, triste, agitando os teus véus como a quereres afastar os fantasmas de algumas tristes lembranças.
Afinal, para que vens?
Se durante o teu reinado não posso ver as flores dos jardins…!
Não posso ouvir o lindo cantar das aves…!
Não posso ser beijada pelo sol…e brincar com as borboletas…!
Não posso ver o germinar das sementes nem as laboriosas formigas…!
Deixa que eu nasça, rasgue o teu véu, rompa entre as nuvens para dar luz à terra, pois eu sou

a AURORA, irmã do Sol e da Lua!