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quarta-feira, 22 de junho de 2011




Para um poema de António Ramos Rosa, as minhas imagens.


"Ondas que descansam no seu gesto nupcial
abrem-se caem
amorosamente sobre os próprios lábios
e a areia
ancas verdes violetas na violência viva
rumor do ilimite na gravidez da água
sussurros gritos minerais inércia magnífica
volúpia de agonia movimentos de amor
morte em cada onda sublevação inaugural
abre-se o corpo que ama na consciência nua
e o corpo é o instante nunca mais e sempre
ó seios e nuvens que na areia se despenham
ó vento anterior ao vento ó cabeças espumosas
ó silêncio sobre o estrépito de amorosas explosões
ó eternidade do mar ensimesmado unânime
em amor e desamor de anónimos amplexos
múltiplo e uno nas suas baixelas cintilantes
ó mar ó presença ondulada do infinito
ó retorno incessante da paixão frigidíssima
ó violenta indolência sempre longínqua sempre ausente
ó catedral profunda que desmoronando-se permanece!"


quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

SONS


Ouço o mar

Quando as minhas mãos mergulham
nas ondas alterosas do teu cabelo,

Navego em águas revoltas.
Desfaço-as.

Caminho contra o vento
Naufrago num castelo de abraços.

Sonho com piratas e corsários
Transformados em dunas de lembranças.

Juntos, olhamos o mar.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Uma Vida



Sentada à mesa da cozinha, Elvira preparava a caldeirada de peixe que o mestre da armação lhe tinha vindo trazer. Tamboril, raia, patarroxa, tremelga e safio. Não era preciso maior diversidade para que o almoço estivesse à altura dos convidados.

O mar, que se habituara a escutar e a conhecer nas suas diferentes marés, era o sustento de todos os que habitavam naquela aldeia mas, hoje era dia de folga e seriam cinco pessoas que, sem nada de importante para tratar, não tinham obstáculo algum em levar toda a tarde a comer e a conversar sobre tudo e mais alguma coisa do que se passava naquela vila, que ela já considerava como sua. Iria sentar à mesa, neste dia de caldeirada, o sr. prior, pessoa já idosa mas ainda com bom apetite, o mestre do barco de pesca onde o seu homem andava e a sua madrinha que não via há imenso tempo por habitar noutra povoação.

A vida, madrasta que tinha sido, colocara-lhe no caminho mil e um obstáculos à realização de seu desejo de ser feliz
Mas soubera contorná-los e com os amigos que agora ia sentar à sua mesa sentia-se preparada para enfrentar e vencer todas as duras batalhas que porventura, ainda estivessem na estrada que lhe faltava percorrer. Não estaria sózinha, desta vez.

Após uma existência cheia de obstáculos transpostos muito dificilmente dada a sua condição de mulher só e pobre, ei-la agora de bem consigo e com a vida.
Ali, naquela aldeia piscatória, encontrara alimento para o corpo e sossego para o espírito na companhia dum pescador, alegre e trabalhador, destemido para o mar, que tão bem sabia encher de afectos o seu coração sedento de ternura e mirrado de afectos..

Nos momentos de solidão, quando a tristeza a invadia e lhe lembrava todos os escolhos do seu passado, dirigia-se à praia e, sentada na areia, dava graças por ter conseguido sobreviver a todas essas dificuldades e ter encontrado, por fim, um porto de abrigo para a nau sem timoneiro que era a sua alma.

Agora, por fim,estava a conseguir sobreviver num mar sem obstáculos.



OBSTÁCULO foi a palavra proposta no PPP, há algums semanas.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

TERRA

Desta vez, coube-me a escolha da palavra para as fotos do PPP.

TERRA, foi a eleita.

Terra com letra grande, terra com letra pequena, a minha terra, pouca-terra muita-terra é a canção do comboio da minha meninice.

Terra à vista!!! era o grito dos marinheiros já cansados da longa permanencia no mar.

Que a terra lhe seja leve! quando acabamos os nossos dias nesta terra e lá ficamos com sete palmos de terra por cima.

Terra onde nascemos, morremos e no intervalo temos que aprender a ser felizes; Terra velhinha mas que se renova constantemente; Terra que para muitos é mãe-doce para outros madrasta-má.
Muitas mais fotos sobre Terra poderão ser vistas no PPP

Esta foi a foto que enviei.



foto tirada numa fabriqueta em Vitória/Brasil onde se fabricam manualmente panelas de barro que apresentam uma cor escura/acinzentada por serem cozidas em cinza.


a minha terra





onde a terra acaba e o mar começa






sábado, 23 de maio de 2009

ABANDONO


Barcos no estaleiro em total abandono; botes nas margens apodrecendo, abandonados como coisa que já não presta a não ser para os ratos construirem os seus ninhos e daí partirem roendo e comendo tanto desperdício no cais.


Teias de aranha a servirem de cortinados nas janelas que ainda são atraentes mas, que se encontram, também elas, esquecidas e abandonadas.
Flor abandonada no chão, símbolo, talvez, de amores acabados; um bichano mostrando o ventre no seu abandono total para uma carícia….

Os montes, outrora lares das gentes do campo que tinham tudo o que precisavam para o seu sustento e dos seus mesmo ali ao pé da porta: a horta, a seara, o pocilgo, o galinheiro, o palheiro e o ….mar.


Bastava dizer: “Mulher, põe as batatas ao lume que vou apanhar um peixe para o almoço”. Uma cavala, um sargo, umas liças ou umas bogas, alimento que o mar dava como complemento para o sustento das famílias que nos montes viviam isoladas.

Hoje, são lares abandonados em ruínas que eu olho com tristeza, mas que a natureza, sempre pródiga nas suas ofertas, continua a embelezar com o desabrochar de flores em multicoloridos como que a fazer-nos esquecer que as crianças já ali não correm pelos campos floridos nem os namorados se encontram para troca de beijos e promessas de amor eterno. Tudo isto hoje, também, abandonado.

A palavra ABANDONO foi o mote para que 35 olhares nos dessem a sua visão sobre ela e no-la apresentassem no PPP.
Clique aqui e depois, com calma e ABANDONO de tempo, visite cada um dos bloguistas participantes.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

MARESIA

Ah, se eu pudesse transmitir-vos, através destas minhas simples palavras, o cheiro a maresia que hoje de manhã ao acordar inundou todo o meu sistema respiratório!!!!

O mar estava um pouco agitado e as areias douradas da praia eram abraçadas e enroladas, fortemente, pelos braços das ondas que no seu afluxo e refluxo as iam tirando daqui para as levar para ali, deixando pedras e rebolos a descoberto ao mesmo tempo que todo o areal mostrava um bordado de pequenas bolhas que logo desapareciam como bolas de sabão.

A luz deste começo de dia torna em prata o brilho ofuscante da água, que bate e salta nos pequenos rochedos que ficam a descoberto, na maré vazia, ao mesmo tempo que cria arco-iris com todas as suas cores.

Convido-vos a um pouco de relaxação e façam como eu: recostem, fechem os olhos, limpem o pensamento, ponham as mãos na nuca, inspirem e aspirem suavemente o perfume inebriante da maresia.


foto minha
sentir meu

domingo, 13 de abril de 2008

O FAROLEIRO

O texto que hoje aqui publico, foi o meu contributo ao jogo lançado à blogoesfera pelo Eremita, para fazer uma composição em prosa ou em verso, onde se incluissem, obrigatoriamente, 12 determinadas palavras.


Foi um desafio que aceitei e, comigo, mais de duas dezenas de bloguistas o fizeram. Se desejarem ver o que as diversas imaginações conseguiram escrever, podem clicar no Eremita acima linkado.


Ela era o farol da sua vida, a luz que o guiava por entre as tenebrosas noites de solidão.

A paixão que sentia no seu peito, dava-lhe coragem para transpor as barreiras daquele distanciamento, daquele mar sempre em tempestade.

A dificuldade da sua vida era amortecida pelo isolamento naquela ilha mas, quando os dois seres se encontravam deixavam transparecer na perfeita fusão dos seus corpos todo o imenso prazer e felicidade que só é sentida por quem se quer com um amor tão avassalador..

Aquele sentimento profundo ajudava-o a comungar com alegria nas duras tarefas do seu quotidiano e apesar de todas as dificuldades sentidas gostava de pensar nela olhando o céu azul e sentir que, nada na sua existência, desde que a amava, se tinha erodido ou danificado.

Tudo era perfeito quando a tinha nos seus braços e a felicidade existia!