Vou abrir uma romã Dia de Reis!
Juntar-nos-emos à sua volta e comendo os seus bagos festejaremos a VIDA!

Este fruto composto por lindos bagos vermelhos tem como simbologia a ORDEM, RIQUEZA, FECUNDIDADE e, por isso vou comê-la dia 6 deste mês com um pouco de açúcar e vinho do Porto, como todos nós cá em casa gostamos.
Espero que a sorte me proteja e a todos os meus neste ano bissexto de 2008.
Que todos os meus amigos e inimigos sejam felizes com a concretização dos seus desejos.
Tenho várias romãzeiras na horta, mas este ano só uma deu fruto. Só um, único e singelo e sempre que lá passava, junto à pequena árvore, dizia para comigo: “Tenho de apanhar esta romã antes que um vento mais forte a ponha ao chão". Pois a romãzinha lá estava ela sozinha, presa à mãe, corada e balouçando-se ao sabor da nortada e, mesmo com a forte ventania que antecedeu o Natal e as chuvas, manteve-se firme no seu raminho e não caiu, pelo que, decididamente resolvi ir buscá-la para casa. As minhas crianças também já tinham mostrado o seu desejo de provarem o primeiro fruto daquela árvore ainda pequena, pouco mais alta que eles mas com umas flores tão bonitas de cor vermelha e com um fruto tão original.
Transpus a pequena cancela que separa o jardim da horta, munida de uma tesoura e de uma cestinha pequena que a colheita também o iria ser.
Ao avistar a pequena romãzeira reparei, que o vento já tinha feito das suas, pois toda ela já se encontrava despida de folhas, com os seus pequenos braços erguidos ao céu como que a clamar para que o vento invisível, mas persistente, não lhe arrancasse aquele filho que ela gerara e desenvolvera com a protecção da sua folhagem. Mas a minha romã ainda lá se encontrava toda rosada, com a sua coroa bem aberta pendurada para o chão, à minha espera para, duma tesourada certeira e firme, a salvar daquela ventania forte que a ela, como a mim, deixava nervosa e tonta.
Com a tesoura que levava cortei o fruto e coloquei-o dentro da minha cestinha.
Vim para casa, satisfeita pelo contentamento que iria proporcionar às minhas crianças ao verem que o seu pedido tinha sido satisfeito.
Mas, de repente, senti que, no fundo do meu coração, a alegria não era completa pois, lembrei-me dos filhos arrancados às mães, dos braços abertos erguidos ao céu numa súplica muda para o regresso de alguém que partiu sem querer…lembrei-me…lembrei-me.. que apesar de salvar a romãzinha da intempérie, talvez a árvore-mãe não ficasse muito satisfeita por lhe ter roubado o seu filho único.
Para que a vida continue vou guardar uns quantos bagos que semearei e talvez nasça uma nova árvore que baptizarei com o nome de “Rainha”, que depois plantarei junto à romãzeira que este ano me deu este fruto tão bonito. Daqui a uns três ou quatro anos terei o prazer de colher o primeiro filho da árvore por mim plantada neste ano bissexto.
“Abre a romã, mostrando a rubicunda cor,
com que tu , rubi, teu preço perdes…”
Luís Vaz de Camões, Os Lusíadas, IX, 59