sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

De Cá Para Lá

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Com o meu pensamento abro a porta que me fechaste. Abro-a ou derrubo-a? Transponho-a e rapidamente passo de cá para lá.
Não raras vezes, o lá é melhor que o cá mas, adoro saltar e brincar e, assim vou desfrutando do prazer de viver mesmo que me feches a porta que teimosamente quero aberta.
Quando estou lá, quero vir para cá, mas lá o espaço é enorme, grande demais e tornou-se agora vazio.Por isso imediatamente me domina uma vontade imensa de regressar.
Regressar?
Correr sem fim pelo jardim que me criaste, saltar e fazer piruetas no ar, brincar às escondidas sabendo que me vais encontrar num abrir e fechar de olhos, mas enfim regressar. E sei, que ao fechar a porta do meu pensamento, neste silêncio que me criaste posso ouvir a voz da saudade falar alto, tão alto que chego a recear que a ouças e não compreendas. Não compreendas a saudade que sinto quando estou do lado de cá.
Só!

domingo, 24 de fevereiro de 2008

O Gigante

Este é o mar que tem açoitado as nossas falésias nestes últimos dias.


Repare-se, na primeira foto, onde as pessoas de colocam para o admirar. Perto demais.Perigoso!



Esta é uma das nossas praias que mais parece coberta de neve.
É pena que as pessoas não respeitem este Gigante e, principalmente, quando está zangado.
Ontem, alguns turistas desceram a falésia para tirar fotos, segundo consta, mas dois já não subiram. Uma onda maior veio buscá-los, abraçou-os e enrolou-os nos seus braços fortes e imensuráveis tirando a vida a um e levando o outro não se sabe para onde, pelo menos até à hora em quem vos relato isto.
Como é grande a força da natureza!
Como eu te respeito, oh Mar!.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

O Muro e o Jasmim

Era simplesmente um muro!

Nada comparado com o muro de Berlim aquele que separava famílias: pais de filhos, irmãos de irmãos, amigos de amigos e que foi uma vergonha para a humanidade mas que, felizmente, já foi derrubado.
Não! Nada disso.
Nem tão pouco aquele muro enorme a que chamam Muralha da China e cuja construção começou antes de Cristo e que se prolongou por muitos séculos depois.
Não! Nada disso.
Também não era aquele muro altíssimo debruado com farpas que se enterram na carne de quem tenta passar por cima e que esconde a liberdade a quem está por detrás dele.
Não! Nada disso.
Era simplesmente um muro caiado de branco.
A si, encostava-se uma amiga trepadeira que no começo da primavera enchia-se de flores brancas e perfumadas que eram o encanto da velha senhora que morava na casa ao lado e que com frequência se sentava na sua cadeira de atabua a fazer o seu crochet ou ...a dormitar enquanto aspirava aquele doce perfume do manto branco que o cobria quase totalmente.
Um dia sentiu uma alegria enorme!
Um casal de melros, visita
normal daquele espaço, começou a construir o seu ninho dentro do jasmim .
Que bom seria poder servir de suporte àquela família de plumagem preta e de bico amarelo!
Assim foi e, pouco a pouco, com pequenos galhos e pedacinhos de tudo e nada, o lar foi ganhando uma forma de covinha aconchegada e dois ovinhos lá foram colocados.
Um belo dia, o muro ouviu o pipilar dos filhotes e, a senhora vizinha passou a ir menos vezes sentar-se à sua sombra para não incomodar os jovens pais no seu trabalho de vai-vem para alimentar aqueles comilões de bico sempre aberto.
Era vê-los crescer e irem criando penugem, depois as penas já escuras e por fim os exercícios na tentativa de voar.
As flores do jasmim continuavam a perfumar o ambiente e a sua sombra amiga continuava a ser um regalo para a senhora vizinha.
Mas, um dia o bater de asas foi mais forte e enérgico e os jovens melros experimentaram aquilo para que tinham nascido VOAR . Partiram, na procura do arco-iris, abandonando o ninho vazio e... o muro sentiu saudades .,
Os pais deixaram de aparecer, embora o ninho lá ficasse e, diga-se que em bom estado de conservação, mas já não havia filhotes para alimentar e ensinar a voar.

A vida continuaria a renovar-se.
A senhora tornou a sentar-se à sombra do muro com mais assiduidade. O crochet ia finalmente ser terminado.Teria dona? Talvez para a neta.
O muro estava feliz!


quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Alta Madrugada


O silêncio foi quebrado

Ruído nada envergonhado

As luzes tão intensas!...

As conversas eram imensas

Era tal o movimento

Tudo muito barulhento!

Os minutos numa coreria

Assim, nova hora surgia

Já alta madrugada

Eu permanecia acordada

Enquanto alguém dormia

Meu pensamento corria

Minha mente vagueava

No real e até sonhava

E assim em descoberta

Encontrou a vereda certa

Para um campo que sorria

Com espaços para a poesia.



Do livro "POEMAS" da minha amiga e colega de estudos do Centro de Estudos de Lagos Natália Rio, vos deixo este lindo poema.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

SARGOS




A pesca do sargo é a grande atracção para os pescadores amadores da costa vicentina. Munidos das suas canas de pesca, carretos, uns mais sofisticados que outros, e todo o equipamento necessário a este desporto, ei-los espalhados pelas arribas da nosso zona onde passam tempos infinitos à espera que o peixe pique.
Nestes últimos dias tem estado vento de sueste o que ajuda à arribação desta espécie pois o mar batido e a água fria proporciona-lhe os ingredientes necessários à sua alimentação. Crustáceos e moluscos(ouriços-do-mar, mexilhões, lapas), tornam a sua carne tão saborosa e diferente das espécies capturadas noutras zonas.Esta é a altura ideal para a sua captura, pois todos os exemplares se encontram em óptimas condições.
Um bom exemplar pode atingir os 3,5Kgs.
Não há bela sem senão e os melhores pesqueiros são só conhecidos de alguns mas, há sempre quem procure instalar-se no lugar privilegiado e que não tenha ainda sido usado, pois o peixe é muito sabido e nem pode cheirar sangue dum seu semelhante pois afasta-se e já não procura o isco.
Os pesqueiros bons são sempre de acesso difícil, quase sempre escorregadio, e para lá chegar é necessário ter muita perícia, sapatos ou botas com lastro apropriado para o percurso e encontrar um espaço adequado para a instalação de todos os pertences que acompanham o pescador.
Hoje morreu mais um pescador.
Desde o ano passado até agora já morreram 11 pescadores nesta costa de Sagres, vítimas do seu descuido. Umas vezes porque escorregam e caiem nas rochas, outras porque uma onda mais traiçoeira os apanha desprevenidos, uma simples distracção é o suficiente para termos homem ao mar.
Como fico triste quando sei destas notícias.
É agradável termos um hobby para descontrair e conviver com os amigos mas, pôr a vida em risco por causa disso e pela satisfação de puxar um peixe que, coitado, farta-se de se debater preso ao anzol até chegar às mãos do seu captor, senhores pescadores amantes das falésias da costa vicentina, por favor, não façam tal!

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Visita a Lisboa


Há demasiado tempo que não visitava Lisboa.
Cidade pequena se comparada com outras cidades europeias mas que possui algo tão especial e tão diferente:
a sua luz!
Lisboa tem para mim uma cor inconfundível. Quando atravesso a ponte 25 de Abril de sul para norte e, com as saudades que me invadem, olho para a esquerda, sinto que valeu a pena a viagem e vejo o Tejo dirigindo-se para o oceano, S.Julião da Barra, os veleiros já na baía de Cascais e sempre aquela luz inconfundível dando às aguas do Tejo o seu tom prateado que faz com que nos esqueçamos da outra cor que os rios têm de verde sujo.
À direita, mesmo ali perto, tão perto que tenho a sensação de lhes puder tocar se estendesse o braço fora do carro, posso ver as docas com os grandes paquetes e o sossego de um rio que até tem um “Mar da Palha”.Pelas encostas, as suas colinas, (são sete) e posso observar alguns dos seus monumentos que olham, para este rio que serve de moldura a esta linda cidade.
Da unidade hoteleira onde fiquei, no alto de Sta.Catarina, no Dafundo, deslumbro-me com a visão do Cristo Rei de braços abertos como que a acolher os lisboetas e ainda vejo os cacilheiros na sua faina de transportar gente de lá para cá e de cá para lá e também os mais modernos over-crafts.
Muito se tem dito, e escrito, e cantado sobre Lisboa e eu não sou ninguém para descrever toda a sua beleza. Não quero, no entanto, deixar em branco o encanto que sempre sinto quando a visito. Todos aqueles que a conhecem terão certamente, cada um à sua maneira e com a sua sensibilidade, sentido o seu coração bater mais forte quando regressam para a sua convivência, para o seu bulício e sentem todo o brilho que a sua luz irradia tão diferente das outras cidades.
Gosto de te visitar Lisboa, continuas a ser a minha cidade.


“A vida é leve e arrendada
Como esta réstea de espuma.
Toda a gente é séria e é boa!
Não existem homens maus!
Adeus, Tejo! Adeus, Lisboa!
Adeus, Ribeira das Naus!
Adeus! Adeus! Adeus! Adeus!”

ADEUS, LISBOA. De António Gedeão